Um futuro do trabalho ainda incerto

Ninguém sabe ainda ao certo o que vai acontecer com relação ao retorno para o presencial. Não entendemos sequer o que significa o híbrido.

Em um momento de forte pressão das equipes sobre os líderes para que definam se o presencial realmente voltará, e em que os candidatos a vagas adotam esse critério para escolher as empresas onde querem trabalhar, seria bom encarar a realidade: há no ar muito mais perguntas do que respostas. Ninguém pode prever o futuro do ecossistema laboral. Uma evidência incontestável disso é o fato de dois dos mais admirados líderes do mundo, ambos à frente de empresas inovadoras, defenderem posições diametralmente opostas.

Refiro-me a Elon Musk, o fundador da Tesla, Space X e outras, e Brian Chesky, o designer industrial que é cofundador e CEO da Airbnb. Musk declarou recentemente que quem não voltasse ao presencial seria demitido (imagino que tenha se arrependido). Chesky afirma, convicto, que a era dos escritórios como os conhecemos definitivamente acabou. Ele mesmo deixou a glamourosa San Francisco para trabalhar em qualquer cidade americana, a partir de imóveis Airbnb.

Não bastasse isso, reacende-se no mundo a discussão sobre a redução de jornada para quatro dias laborais. Seria uma maneira de ampliar a oferta de empregos, melhorar a qualidade de vida, a saúde física e mental e estimular o empreendedorismo.

Uma recente pesquisa da Accenture, apenas para citar mais um exemplo de incerteza, revelou que 83% dos respondentes desejam um arranjo híbrido. Mas ninguém é capaz de especificar o que significa isso para cada realidade, setor ou atividade. É óbvio que todos

nós gostaríamos de ter certezas, de ter mais elementos para poder planejar. Não só para estabelecer as táticas operacionais, mas para obter uma visão estratégica mais clara em relação ao que esperar dos mercados. Também seria ótimo se soubéssemos como essas definições impactam as tendências derivadas das mudanças socioculturais. A busca de diversidade nas equipes, por exemplo, é uma das metas comuns das empresas. Chesky, com razão, afirma que o trabalho remoto propicia a contratação de pessoas que vivem em múltiplos lugares e têm culturas diferentes. Pude comprovar essa realidade na empresa que dirijo. Saímos na frente com o remoto, antes mesmo da pandemia, e hoje temos pessoas trabalhando de fora do Brasil e em cidades no interior de outros estados.

Quero propor um exercício valioso (e curioso) para a sua organização: o de se repensar como “sapo”. Falo da estratégia Frog (sapo, em inglês), acrônimo para Fully Remote Organization, organizações totalmente remotas, em português. Essas organizações têm arquitetura digital, são segmentadas e colaborativas, combinando profissionais de diferentes culturas, formações e percepções de mundo. Assim como os sapos nascem na água, elas se originam em um ambiente fluido e mutante. Já pensou se sua empresa renascesse hoje na água e totalmente remota? Que alianças seriam necessárias para operar? Quais seriam as atividades centrais e geradoras de valor? O que poderia ser realizado por parceiros estratégicos no presencial? Em que vocês se concentrariam?

Bem, enquanto não mudamos de “empresas príncipes” para “empresas sapos” teremos que aprender a administrar as incertezas. Não dá para esperar a chuva passar. É preciso aprender a trabalhar no molhado. Uma das lições mais antigas de gestão de mudanças segue valiosa no atual cenário de incertezas: quando não tiver respostas, não dê respostas. A única coisa que nós, líderes, podemos prometer hoje em dia é isto: mais e mais mudanças.

Fonte: OlharDigítal | 27/07/2022